¢hªº§*Os Falsos Hai Kai
Quarta-feira, Março 02, 2011
  Irmãos de sangue (La Cuerva) - revisado
O vento soprava forte e violentamente na entrada da caverna. Lá dentro, o casal que tentava se esconder da tempestade próxima se aquecia com peles de urso e uma fogueira fraca, que ela conseguiu acender quase que desesperadamente, para manter seu amigo ferido vivo e aquecido. Já haviam percorrido quilômetros pela floresta, até que encontraram a caverna e decidiram passar o tempo necessário para que ele se recuperasse dos seus ferimentos. A flecha que lhe atravessara o ombro fora retirada, não sem dor, e a garota fora instruída para que procurasse as ervas certas e as preparasse da melhor forma possível. Gritos cheios de dor ecoavam pelo interior da caverna enquanto a garota passava o ungüento verde direto na ferida do companheiro, que segurava-se cada vez mais forte para tentar manter-se vivo e chegar ao seu destino final.
-Agüenta firme, nós vamos chegar...há muito ainda o que me ensinar sobre sua feitiçaria e um longo caminho à ser trilhado...nós vamos chegar lá juntos...me prometa...me prometa...
A jovem falava num tom áspero, não era como o restante das mulheres de sua tribo, ela jamais compreendeu como as mulheres apenas mantinham aquele jeito inferior e como elas podiam se sujeitar às tradições da tribo. Ela, desde pequena, sentia que nascera para lutar, e jamais se curvou ou se rebaixou contra quem fosse...hoje, sabia ser este o maior motivo da expulsão dos dois. Ela por não respeitar as antigas tradições, ele por apoiá-la e ensiná-la artes que não eram para as mulheres, artes que não eram os feitiços de cura que os antigos reservavam para as mulheres, mas sim os feitiços para a guerra, as manobras do arco e da flecha, como segurar uma lança e como lutar contra ursos e homens. Estavam longe de casa e sozinhos.
-Você não vai me deixar agora...já passamos por coisas demais juntos. Se me abandonar, por mais tempo que leve, pode ser por muitas vidas, mas te encontro e te mato...nós vamos conseguir...
Ele apenas a olhava, sorria e tentava disfarçar a dor que sentia. Não queria deixar a menina preocupada, mas não possuía muitas forças para disfarçar a febre alta e a dor. Ela levantou o cobertor dele e deitou ao seu lado, cobrindo aos dois, e o abraçou o mais forte que pôde, encolhendo-se juntos para não sentirem o vento que entrava pela rachadura nas pedras.
-Suando vamos tirar a doença...vamos livrar a doença do seu corpo, e amanhã vamos voltar a trilhar, vamos sair desse lugar e chegar aonde quer que seja aonde quer me levar...
Ele a viu dormir, aos poucos, e já se sentia melhor por estar ali com ela. Ele olhava sua pele morena, seus longos e desgrenhados cabelos negros e se perguntava por que fazia tudo aquilo por ela...por que abandonara a própria gente, por que se arriscava por uma menina irritadiça e rebelde? Sorriu com esses pensamentos e juntou forças para sussurrar uma antiga canção da tribo, até cair no sono também.
Em seus sonhos, viu um Lobo e um Corvo, dentro da terra, lutando para manter-se juntos. A chuva caía sobre a terra e abria um buraco pelo qual juntos eles passavam, até chegarem numa clareira enorme, e o sol enxugava suas costas cansadas e machucadas.
 
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